Cartas da Rota da Seda

Onde o ano vira

Maragha, Dadu, Dengfeng e os astrônomos de dois khans mongóis, de 1259 a 1281

Por Fred Suh ·

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Nas colinas do centro da China há uma torre de tijolos com um longo sulco de pedra que corre para o norte a partir de sua base. Parece um monumento, mas é um instrumento de medição, e o filme desta semana começa ali, ao meio-dia de um solstício de inverno por volta de 1280.

Uma sombra que se pode ler

Os astrônomos chineses havia muito encontravam a virada do ano medindo a sombra de um poste ao meio-dia. O problema é que a borda de uma sombra é difusa. Em Dengfeng, os construtores transformaram o poste numa torre: uma barra horizontal fixada no alto de uma janela, que os registros chineses dizem estar a quarenta chi de altura, cinco vezes a dos antigos gnômons. Abaixo dela corre uma escala de pedra de cerca de trinta e um metros. Para tornar nítido o borrão, o observador deslizava ao longo da escala uma folha de cobre com um furo de cerca de dois milímetros, até que a imagem da barra dividisse ao meio a mancha de luz do sol. As fontes divergem sobre se a torre foi erguida em 1276 ou em 1279, mas ela continua de pé.

Foi construída para Kublai Khan, que queria um novo calendário. Menos de vinte anos antes, seu irmão Hulagu havia iniciado um observatório muito diferente na Pérsia. O filme conta as duas histórias juntas, e descobri que o par muda o modo como cada uma delas se mostra.

A colina de Maragha

Em 1256 o exército de Hulagu tomou a fortaleza de Alamut, e entre os eruditos que ali estavam havia Nasir al-Din Tusi, então na casa dos cinquenta anos. Se ele saiu como cativo ou como recruta voluntário ainda é motivo de debate. Depois da queda de Bagdá, em 1258, foi posto à frente das doações religiosas, os waqfs, e convenceu Hulagu de que as antigas tábuas das estrelas estavam defasadas em cerca de dois séculos e meio. O resultado, a partir de 1259, foi um observatório numa colina em Maragha, pago com a renda de uma doação. Um resumo moderno o chama de primeiro observatório financiado dessa maneira, e os historiadores costumam creditar à doação o fato de ele ter sobrevivido depois da morte de Hulagu, em 1265. (Há também uma história pitoresca sobre Tusi fazendo rolar um caldeirão colina abaixo para ilustrar algo sobre o medo e o conhecimento. É tardia, e a contamos no filme apenas como história.)

Escavadores traçaram o sítio em 1972: um topo de colina plano com cerca de quatrocentos metros de comprimento, uma torre central redonda, plataformas para instrumentos, uma oficina de fundição, uma escola e uma biblioteca. A equipe vinha de longe. Al-Urdi, de Damasco, construiu os instrumentos e o abastecimento de água. Al-Maghribi veio de al-Andalus e manteve um caderno de observações de 1262 a 1274. O erudito siríaco Bar Hebraeus visitava o local com frequência e morreu ali em 1286.

O plano era de doze anos de observação dos planetas, uma volta completa de Júpiter. As tábuas persas de Tusi apareceram logo depois de 1270, mas Benno van Dalen acha que elas ainda não incluíam esses resultados, embora alguns relatos mais antigos digam que sim. Incluíam algo inesperado: um calendário sino-uigur, com meses começando na lua nova e anos nomeados por doze animais. Dois autores mencionam um erudito chinês em Maragha, cujo nome sobrevive apenas por grafias persas como Fu Mengchi. Van Dalen acha que ele provavelmente foi a principal fonte, e que o calendário descendia do da dinastia Jin, não do de Kublai. Se assim for, um só homem levou um sistema inteiro para o oeste.

Duas repartições em Dadu

O tráfego corria também no sentido contrário. Jamal al-Din, um astrônomo da região de Bucara, trouxe a Kublai em 1267 um calendário islâmico, com modelos ou desenhos de sete instrumentos (se eram objetos reais é discutido), entre eles o primeiro globo terrestre dos registros chineses. Em 1271 Kublai lhe deu uma Repartição Astronômica Islâmica de cerca de quarenta pessoas, com Ptolomeu e Euclides em suas estantes. Ela fez trabalho de verdade, medindo de novo estrelas e planetas numa tábua persa que sobrevive principalmente numa tradução chinesa de 1383. Ainda assim, Shi Yunli não encontra sinal de que sua equipe conversasse com os colegas chineses.

A repartição chinesa, criada em 1278 ou 1279, era maior e, na avaliação de Nathan Sivin, a reforma mais cara do gênero. Wang Xun dirigia os cálculos e Guo Shoujing, um engenheiro hidráulico nascido em 1231, dirigia as observações, com equipes em vinte e sete lugares do império. O calendário deles entrou em vigor em 1281 com um ano de 365,2425 dias, valor que um calendário anterior, de 1198, já havia usado. A Europa chegaria ao mesmo número em 1582.

O que atravessou e o que não atravessou

Esta é a parte que me surpreendeu. Com dois observatórios sob uma só família de governantes, seria de esperar uma enxurrada de empréstimos. Os especialistas encontram um fio de água. Pessoas atravessaram, e com elas um calendário rumo ao oeste e projetos de instrumentos rumo ao leste. Mas van Dalen não encontra tábuas islâmicas dentro do calendário de Guo, e Sivin não encontra nenhum manual islâmico traduzido no período. Alguns instrumentos de Guo se parecem com os islâmicos, e os estudiosos já argumentaram nos dois sentidos; se o seu método para eclipses deve algo à geometria islâmica ainda é uma questão em aberto.

Maragha já estava em silêncio no início do século XIV. O calendário de Guo serviu à China por mais de três séculos, e a torre de Dengfeng ainda apanha o sol.

O filme põe na tela a torre, a colina e as pessoas; as fontes por trás de cada afirmação estão abaixo, se você quiser aprofundar.

Fontes

  1. Wikipédia, “Gaocheng Astronomical Observatory” (a torre de Dengfeng, a barra de 40 chi e a escala de pedra)
  2. Astronomical Heritage (UNESCO/IAU), “Dengfeng observatory, China” (a torre e suas datas)
  3. Ng Say Tiong e Helmer Aslaksen, “Calendars, Interpolation, Gnomons and Armillary Spheres in the Work of Guo Shoujing” (a folha com furo; trechos do Yuan Shi)
  4. Wikipédia, “Maragheh observatory” (a fundação em 1259, a colina, a escavação de 1972)
  5. Mediterranea (Universidad de Córdoba), artigo sobre o observatório de Maragha e seu financiamento por waqf
  6. Wikipédia, “Nasir al-Din al-Tusi” (Alamut, os waqfs, sua morte em Bagdá)
  7. F. J. Ragep, “Ṭūsī, Naṣīr al-Dīn,” Biographical Encyclopedia of Astronomers (prisioneiro ou convidado)
  8. MacTutor History of Mathematics, “Nasir al-Din al-Tusi” (vida e obra)
  9. Wikipédia, “Zij-i Ilkhani” (as Tábuas Ilcânicas)
  10. Wikipédia, “Tusi couple” (mais antigo que o observatório)
  11. Wikipédia, “Mu’ayyad al-Din al-Urdi” (instrumentos e abastecimento de água)
  12. Wikipédia, “Muhyi al-Din al-Maghribi” (o caderno de observações, 1262 a 1274)
  13. Wikipédia, “Barhebraeus” (suas visitas a Maragha e sua morte ali em 1286)
  14. Benno van Dalen, “Islamic and Chinese Astronomy under the Mongols: a Little-Known Case of Transmission” (Fu Mengchi, o calendário sino-uigur, o que atravessou)
  15. Benno van Dalen, “Zhamaluding,” Biographical Encyclopedia of Astronomers (Jamal al-Din, a repartição, o levantamento)
  16. Wikipédia, “Jamal ad-Din Bukhari” (os sete instrumentos de 1267)
  17. Shi Yunli, “Islamic Astronomy in the Service of Yuan and Ming Monarchs” (duas repartições que não conversavam)
  18. Resenha da MAA sobre Nathan Sivin, “Granting the Seasons” (a reforma de 1280, sua equipe e seu custo)
  19. Biographical Encyclopedia of Astronomers, “Guo Shoujing” (instrumentos, estações, o calendário Shoushi)
  20. MacTutor History of Mathematics, “Guo Shoujing” (vida, canais e relógios de água)
  21. Wikipédia, “Guo Shoujing” (a esfera armilar simplificada e sua cópia em Nanquim)
  22. Wikipédia, “Tropical year” e “Gregorian calendar” (comparação da duração do ano)

Esta carta foi redigida com auxílio de IA a partir do roteiro pesquisado do filme e de suas notas de fontes. Enviar uma correção