Uma tigela à porta
Os albergues sufis, seus hóspedes e seus patronos, do Cairo de Saladino (1173) à Anatólia de Ibn Battuta (1332)
Assistir ao filmeO filme desta semana começa com um homem de quem ninguém deixou registro. Imaginamos que ele esteja numa estrada da Anatólia por volta de 1275, ao entardecer, com a bolsa vazia, batendo à porta de um albergue sufi. Tudo o que lhe acontece depois que a porta se abre é emprestado de pessoas que de fato escreveram, e o filme tem o cuidado de dizer de quem é a evidência que usa e de que ano.
As regras da casa
As casas tinham vários nomes. Nas terras da Pérsia ao Egito, a palavra comum era khanqah. Um ribat também podia ser um albergue, embora na Síria a palavra tenha passado a significar uma casa para mulheres. Zawiya era usada sobretudo no Norte da África, e o tekke turco veio mais tarde. Qualquer que fosse o nome, era um lugar onde uma irmandade vivia, rezava e ensinava, e onde um forasteiro podia encontrar uma refeição.
Nosso melhor guia para a etiqueta é um manual escrito em Bagdá por Shihab al-Din Umar al-Suhrawardi, morto em 1234. O problema é que o lemos por meio de uma adaptação persa feita cerca de um século depois, de modo que cada regra nos chega em segunda mão. Mesmo assim, as regras impressionam. Os hóspedes deviam chegar antes da tarde, saudar a casa com uma oração e um aperto de mãos e ficar calados, a menos que lhes perguntassem algo. Os anfitriões deviam recebê-los, oferecer-lhes algo leve para comer e deixá-los descansar. O recém-chegado devia ficar quieto por três dias; só depois disso podia pedir para ficar e assumir uma tarefa. Até um hóspede que parecesse inadequado era alimentado e despedido com gentileza. A refeição, em outras palavras, vinha antes das perguntas.
Nem todos os que batiam à porta eram honestos. Sa’di, escrevendo em 1258, conta de dervixes que deixaram entrar um estranho com manto de sufi, só para vê-lo roubá-los e levar o grupo inteiro para a cadeia. Cinquenta anos depois da nossa noite imaginada, Ibn Battuta encontrou os albergues do Cairo funcionando como pequenas instituições: pão e sopa duas vezes ao dia, roupas de acordo com a estação, uma mesada mensal e, às quintas-feiras, doces de açúcar e sabão. Não temos nada parecido com essa lista para uma casinha à beira da estrada.
Quem pagava a sopa
Na maioria dos casos, uma dotação. Um doador separava um bem como waqf, e a renda dele pagava o cozinheiro e enchia a panela. Saladino transformou um antigo palácio no Cairo em albergue para sufis de fora, em 1173. O sultão mameluco Qalawun dotou um ribat em Jerusalém em 1282. Nas estradas da Anatólia, os sultões seljúcidas construíram cerca de cem caravançarás. Eram estalagens, não casas sufis, mas também viviam de doações piedosas, e relatos gerais dizem que muitos ofereciam comida e hospedagem de graça.
As mulheres tinham as suas próprias casas. Em Alepo, uma inscrição data um ribat de 1237 ou 1238, provavelmente fundado pela regente Dayfa Khatun, e diz-se que ele abrigava viúvas, mulheres idosas e divorciadas. No Cairo, em 1285, uma filha do sultão Baybars dotou um para uma xeica que já tinha seguidores em Damasco.
A noite e as vozes
Depois do anoitecer vinham a oração e, em muitas casas, o dhikr, a repetição do nome de Deus ou de uma frase curta. Alguns albergues também praticavam o sama, a escuta de versos cantados, embora os estudiosos discordassem a respeito. O filme é honesto sobre os dervixes rodopiantes: segundo o Ministério da Cultura da Turquia, a cerimônia de Konya não tinha forma fixa enquanto Rumi viveu, e foi moldada por seu filho, por seu neto e por gerações posteriores.
Rumi está no filme, mas como uma voz entre muitas numa sala cheia. Ao lado dele estão seu contemporâneo de Konya, Qunawi, discípulo de Ibn Arabi; Sa’di, em Xiraz; a ordem de Suhrawardi em Bagdá, que sobreviveu ao califado; os xeques chishtis do Punjab e de Délhi; os qalandares errantes, de sobrancelhas raspadas; e as irmandades de artesãos lideradas por akhis, cujas hospedarias Ibn Battuta apreciou em 1332.
Xeques e cãs
Os mongóis são o pano de fundo. Najm al-Din Kubra morreu em 1221, quando os mongóis tomaram a sua cidade, depois de se recusar a partir. Seu discípulo Sayf al-Din Bakharzi continuou vivendo em Bucara sob o domínio mongol por cerca de quarenta anos e diz-se que teve influência real. Uma história posterior lhe atribui a conversão do cã Berke, mas um historiador persa da época diz que Berke foi criado como muçulmano, por isso eu trataria essa história com cautela. Mais tarde ainda, um vizir mongol em Tabriz pagou mil dinares por ano ao albergue de um poeta, e em Konya uma princesa georgiana ajudou a custear o túmulo de Rumi, concluído em 1274.
O que fica comigo é o quanto pouco ouvimos do cozinheiro, do porteiro ou das mulheres do ribat. O trabalho deles é a razão pela qual o viajante foi embora alimentado.
Veja o filme para acompanhar a noite inteira e use as fontes abaixo para seguir qualquer pista mais adiante.
Fontes
- Suhrawardi, ʿAwārif al-maʿārif, na versão inglesa de H. Wilberforce Clarke a partir da versão persa posterior (Calcutá, 1891) (as regras para hóspedes e anfitriões, a rotina da noite, o debate sobre o sama)
- Wikipédia, “Shihab al-Din ʿUmar al-Suhrawardi” (o autor de Bagdá, morto em 1234; o título de Shaykh al-Islam)
- Wikipédia, “Mahmud ibn Ali al-Qashani” (a adaptação em persa, cerca de um século depois)
- Wikipédia, “Khanqah” (nomes do albergue; a casa de Saladino no Cairo, 1173; dotações)
- Wikipédia, “Sufi lodge” (cozinhas, quartos de hóspedes, mecenato)
- Wikipédia, “Ribat” (a mudança do sentido da palavra para casa de mulheres na Síria)
- Wikipédia, “Zawiya (institution)” (o uso no Norte da África)
- Wikipédia, “Khanqah al-Farafira” (o ribat feminino de Alepo, inscrição de 1237 ou 1238)
- Wikipédia, “Dayfa Khatun” (a provável fundadora em Alepo)
- Women Builders of the Islamic World, verbete sobre o Ribat al-Baghdadiyya, Cairo, 1285
- Wikipédia, “Ribat of Sultan al-Mansur Qalawun” (Jerusalém, 1282)
- Wikipédia, “Sultanate of Rum” (cerca de cem caravançarás seljúcidas)
- Saʿdi, Gulistan, tradução inglesa de James Ross, Projeto Gutenberg (o ladrão com manto de dervixe; dez dervixes num só tapete)
- Wikipédia, “Saadi Shirazi” (suas viagens, o Gulistan de 1258, sua morte em 1291 ou 1292)
- Ibn Battuta, Rihla, seção do Cairo, tradução de Gibb, Internet Medieval Sourcebook (os albergues do Cairo por volta de 1326)
- Ibn Battuta, Rihla, seções da Anatólia, tradução de Gibb (Bursa e os akhis, 1332)
- Wikipédia, “Dhikr” e “Sama (Sufism)” (recordação e escuta)
- Ministério da Cultura e Turismo da Turquia, sobre a cerimônia mevlevi do sema (sem regras fixas durante a vida de Rumi)
- Wikipédia, “Nizamuddin Auliya” (escuta sem instrumentos nem dança; seu albergue perto de Délhi)
- Encyclopaedia Iranica, “Ganj-e Šakar, Farid-al-Din Masʿud” (Baba Farid em Ajodhan)
- Wikipédia, “Rumi”, “Sadr al-Din al-Qunawi” e “Ibn Arabi” (as vozes de Konya e de Damasco)
- Wikipédia, “Jamal al-Din Saoji” (os qalandares) e “Akhiya” (as irmandades de artesãos)
- Wikipédia, “Najmuddin Kubra” e “Sayf al-Din Bakharzi” (a Kubrawiyya sob os mongóis)
- Wikipédia, “Berke” (os dois relatos sobre a sua fé)
- Wikipédia, “Humam-i Tabrizi”, “Tekuder” e “Mevlana Museum” (a doação de Juvayni; os sufis de Tegüder; o túmulo de Rumi, 1274)
Esta carta foi redigida com auxílio de IA a partir do roteiro pesquisado do filme e de suas notas de fontes. Enviar uma correção